Esse é um dos segredos que Seu Antônio, meu pai, nunca contou para qualquer um não. Passei anos vendo ele escolher o capim certo para cada parte da fazenda — essa escolha era tão criteriosa quanto a escolha do tempero para a linguiça. “João”, ele me dizia enquanto caminhávamos pelo pasto de manhã cedo, “gado bem alimentado não dá trabalho — gado mal alimentado dá prejuízo o ano inteiro.” Aprendi a respeitar o pasto com ele antes de aprender qualquer outra coisa sobre criação.
Aqui na Fazenda Boa Esperança, em Piumhi, no sudoeste de Minas, a escolha do capim nunca foi aleatória. Meu pai estudou cada palmo da terra — as partes mais úmidas perto do córrego, as partes mais secas e pedregosas no alto do morro, as baixadas que alagam no inverno. Cada tipo de terreno pede um capim diferente, e plantar o capim errado no lugar errado é jogar dinheiro fora. Aprendi isso na prática, errando junto com ele e acertando com o tempo.
Nesse artigo vou compartilhar o que plantamos aqui e por que — um conhecimento que ficou restrito à nossa família por gerações e que hoje decido registrar para não se perder. Se você cria gado ou está pensando em começar, leia com atenção. Esse trem faz diferença no bolso e na saúde do rebanho, uai.
Por que a escolha do capim é a decisão mais importante da pecuária
Meu pai Seu Antônio tinha uma frase que eu ouvi centenas de vezes: “O capim é o sal da terra do criador.” Demorei para entender completamente o que ele queria dizer — mas hoje entendo.
Para quem quiser se aprofundar na parte técnica, a Embrapa Gado de Corte mantém material público sobre o assunto que vale a leitura.
A pastagem representa entre 60% e 70% do custo de alimentação do gado. Quando você tem um pasto produtivo, bem manejado e com o capim certo para o seu clima e solo, o gado se alimenta bem com custo mínimo. Quando o pasto é ruim — capim errado, solo esgotado, lotação excessiva — você passa o ano inteiro comprando suplemento, ração e ainda assim o gado não produz bem.

Aqui na Fazenda Boa Esperança aprendemos que investir na pastagem é o investimento de maior retorno que existe na pecuária. É mais barato do que qualquer suplemento, qualquer medicamento, qualquer equipamento. Pasto bom é a base de tudo.
O que plantamos aqui e por quê
Ao longo de décadas de manejo aqui na fazenda chegamos a uma combinação de capins que funciona muito bem para o nosso clima — o sudoeste mineiro tem invernos secos e verões chuvosos, com temperatura que varia entre 12°C no inverno e 32°C no verão.
Brachiaria brizantha — Marandu
Esse é o capim que ocupa a maior parte da nossa área — cerca de 60% da pastagem total. O Marandu é o mais plantado no Brasil por boas razões — é resistente à seca, tolera solos de média fertilidade, tem boa produção de massa verde e o gado aceita bem em qualquer fase da vida.
Aqui plantamos o Marandu nas áreas de meia encosta — terreno bem drenado, sem risco de alagamento. O Marandu não tolera encharcamento — morre rapidamente em áreas que ficam alagadas por mais de 48 horas. Essa é a limitação mais importante que Seu Antônio me ensinou sobre essa gramínea.
A produtividade do Marandu bem manejado aqui na fazenda nos permite manter uma lotação de 1,2 unidades animais por hectare no período das águas — resultado muito satisfatório para o nosso tipo de solo.
Brachiaria humidicola
Esse capim ocupa as nossas baixadas — as áreas próximas ao córrego que ficam úmidas o ano inteiro e que alagam parcialmente no inverno. O humidicola é uma das poucas gramíneas que tolera solo encharcado e ainda produz bem nessas condições.
Meu pai foi um dos primeiros aqui na região de Piumhi a plantar humidicola nas baixadas quando a maioria ainda tentava usar Marandu nessas áreas e perdia tudo nas cheias do inverno. Ele viu um fazendeiro vizinho usar com sucesso e foi aprender antes de plantar. Esse hábito de observar e aprender antes de agir é uma das maiores lições que ele me deixou.
O humidicola tem valor nutritivo menor que o Marandu — então usamos essa área principalmente para recria de novilhas e para vacas secas. O gado em produção fica nas áreas de Marandu com melhor valor nutritivo.
Panicum maximum — Mombaça
O Mombaça é nosso capim de elite — plantado em aproximadamente 20% da área total, nas partes de melhor solo e mais planas da fazenda. É o capim de maior valor nutritivo do nosso sistema e o que reservamos para as vacas em lactação.
Minha avó Geralda dizia que o leite das vacas que pastavam no Mombaça era mais amarelo e mais gorduroso — ela percebia isso pela cor da manteiga que fazia. Hoje a ciência explica o que ela observava na prática — o Mombaça tem teor proteico mais alto que as braquiárias e contribui diretamente para a qualidade e quantidade do leite.
A exigência do Mombaça é maior — precisa de solo mais fértil e responde bem à adubação. Aqui adubamos essa área uma vez por ano com adubo orgânico do próprio curral. O investimento se paga na produção de leite das vacas que pastam nele.
Capim Elefante — Napier
O Napier não fica no pasto — fica em uma área específica de capineira, separada da pastagem. É usado como suplementação no cocho durante a seca, quando o pasto das águas baixa a produção.
Seu Antônio sempre manteve uma capineira de Napier porque dizia que fazendeiro que não tem capineira fica refém do clima. Nos anos de seca mais severa, a capineira foi o que sustentou o rebanho sem precisar comprar volumoso de fora. É uma reserva estratégica que recomendo para qualquer propriedade.

O Napier é cortado, picado no picador de forragem e oferecido no cocho junto com um complemento proteico. Aqui misturamos com bagaço de cana e farelo de soja — combinação que Seu Antônio desenvolveu ao longo de anos de observação do rebanho.
Manejo do pasto — o que faz toda a diferença
Plantar o capim certo é apenas metade do trabalho. O manejo é o que determina se o pasto vai durar anos produtivo ou vai se degradar em poucos anos.
Período de descanso: aqui na Fazenda Boa Esperança dividimos a pastagem em piquetes e rotacionamos o gado com período de descanso de 28 a 35 dias no verão e 45 a 60 dias no inverno. Esse descanso permite que o capim se recupere completamente antes de receber o gado novamente.
Meu pai Seu Antônio demorou anos para convencer os vizinhos de que o pastejo rotacionado era melhor do que o pastejo contínuo. Hoje a maioria adotou — os resultados são visíveis em lotação maior, pasto mais uniforme e menor necessidade de reforma de pastagem.
Altura de entrada e saída: entramos com o gado quando o Marandu está com 30 a 35 cm de altura e saímos quando baixa para 15 cm. Esse manejo de altura é o que garante que o capim sempre tenha folha suficiente para fotossíntese e se recupere rápido após o pastejo.
Adubação: fazemos adubação de manutenção uma vez por ano nas áreas de Marandu e Mombaça — principalmente nitrogênio e potássio após as primeiras chuvas. O retorno em produtividade compensa muito o investimento em adubo.
Reforma de pastagem — quando e como
Pasto degradado é pasto que perdeu vigor — com muitas falhas, invasão de plantas daninhas e produção muito abaixo do potencial. Aqui na fazenda temos uma regra que Seu Antônio estabeleceu — quando mais de 30% da área de um piquete está com falhas ou dominado por plantas daninhas, é hora de reformar.
A reforma pode ser feita de duas formas — total, com preparo do solo e replantio, ou parcial, com sobressemeadura nas falhas. Para falhas pequenas e localizadas a sobressemeadura resolve. Para degradação mais severa a reforma total é necessária — é custo que dói no bolso mas que se paga em 2 anos de pasto produtivo.
Produto recomendado — Sementes de Capim de Qualidade
A qualidade das sementes é o primeiro passo para um pasto produtivo. Sementes de baixo valor cultural — com baixa germinação e pureza — resultam em pastagem irregular, com falhas desde o início e maior necessidade de replantio.
Invista em sementes certificadas de fornecedores confiáveis — a diferença de preço entre a semente boa e a semente ruim é pequena comparada com o custo de reformar um pasto que não pegou direito.
Perguntas frequentes
Qual capim é melhor para solo fraco?
Humidicola e Brachiaria decumbens toleram solo de baixa fertilidade e acidez. Mombaça e Tanzânia exigem solo corrigido e adubado para produzir bem.
Quantos animais por hectare a pastagem suporta?
Varia muito com o capim e o manejo. Braquiária bem formada suporta de 1,5 a 2,5 unidades animal por hectare. Com manejo rotacionado e adubação, capins como Mombaça chegam a 4.
Quando devo fazer a reforma da pastagem?
Quando a cobertura do solo cai abaixo de 60 por cento ou quando a invasora domina mais de um terço da área. Reforma tardia custa muito mais caro que manutenção preventiva.
Preciso fazer análise de solo?
Precisa. Sem análise você aduba no escuro, gastando com nutriente que talvez não esteja faltando. A análise custa pouco e paga a si mesma na primeira aplicação bem dirigida.
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Conclusão
A escolha do capim certo para cada área da propriedade é um conhecimento que leva anos para desenvolver — e que aqui na Fazenda Boa Esperança passou de Seu Antônio para mim através de anos de caminhadas pelo pasto, de observação do gado e de muito erro e acerto.
Esse conhecimento ficou restrito à nossa família por muito tempo. Hoje compartilho aqui porque acredito que fazendeiro bem informado é fazendeiro que prospera — e prosperidade no campo faz bem para todo mundo.
Se você cria gado ou está planejando começar, me conta nos comentários qual é a sua região e qual capim você usa. Adoro trocar experiência com outros criadores — cada região tem suas particularidades e sempre tem algo novo para aprender, uai.
Um abraço do campo!
— João Augusto
