Queijo minas artesanal — a receita que fazemos aqui há anos

Esse é um dos segredos mais antigos da Fazenda Boa Esperança — uma receita que minha avó paterna Dona Maria trouxe da família dela e que nunca saiu daqui. Dona Maria era mulher de poucas palavras mas de mão cheia na cozinha — especialista em doces, conservas e principalmente em queijo. O queijo minas artesanal que ela fazia aqui em Piumhi era tão famoso na região que as pessoas faziam questão de visitar a fazenda na época certa só para levar um queijo embora. Ela nunca vendeu — dava para quem ela queria dar e pronto. Receita ela nunca ensinou para ninguém de fora da família. Você só vai encontrar esse segredo aqui, uai.

Aqui na Fazenda Boa Esperança o queijo é feito de manhã cedo logo depois da ordenha — o leite ainda está morno quando a gente começa o processo. Meu pai Seu Antônio acordava antes do sol, tirava o leite das vacas de pasto, e enquanto eu ainda estava dormindo ele já estava com o coalho na mão preparando o queijo que ia secar na prateleira de madeira do galpão que meu avô Joaquim construiu. Quando eu acordava o cheiro de leite coalhado já tomava conta da cozinha da Dona Lúcia. É uma memória tão viva que quando faço queijo hoje aqui na fazenda parece que o tempo não passou nenhum dia.

Cresci vendo esse processo acontecer todos os dias. O queijo minas artesanal não é uma receita que se aprende num livro — é uma prática que se aprende pelo olho, pela mão, pelo cheiro. Você aprende a sentir quando a coalhada está no ponto certo de cortar. Aprende a pressionar a massa na forma com a força certa que Dona Maria me ensinou. Aprende pelo cheiro quando o queijo está curado no ponto ideal. É um conhecimento que nossa família acumulou ao longo de gerações aqui na região de Piumhi — e que hoje compartilho aqui porque conhecimento bom demais para ficar guardado, sô.


Leite cru ou pasteurizado — qual usar

Essa é a primeira decisão importante. O queijo minas artesanal tradicional é feito com leite cru — leite que não passou por pasteurização. É o leite cru que traz os microrganismos naturais responsáveis pelo sabor característico e pela cura do queijo.

No entanto, o uso de leite cru em casa requer atenção à origem do leite. Use apenas leite de animais saudáveis, de propriedades que você conhece e confia. Se não tiver acesso a leite cru de boa procedência, use leite integral pasteurizado fresco — o resultado será um queijo mais suave, menos complexo, mas ainda muito superior ao queijo industrial.

Nunca use leite longa vida para fazer queijo. O processo de ultra-pasteurização destrói as proteínas necessárias para a coalhada se formar corretamente.


Ingredientes

Para fazer 1 queijo de aproximadamente 500g:

  • 5 litros de leite integral fresco — cru ou pasteurizado
  • 1 colher de chá rasa de coalho líquido industrial ou natural
  • 50ml de água filtrada em temperatura ambiente — para diluir o coalho
  • 1 colher de sopa bem cheia de sal grosso para salgar a massa
  • Sal grosso adicional para salgar a superfície depois de prensado

Equipamentos necessários

  • Panela grande de inox ou esmaltada — nunca de alumínio
  • Termômetro culinário — fundamental para controlar a temperatura
  • Faca de lâmina longa para cortar a coalhada
  • Forma para queijo minas com furos para drenar o soro
  • Pano de queijo ou fralda de algodão fina e limpa
  • Tábua de madeira ou prateleira para curar

Modo de preparo

Etapa 1 — Aquecendo o leite

Coloque o leite na panela e leve ao fogo baixo, mexendo ocasionalmente para não queimar no fundo. A temperatura ideal para adicionar o coalho é entre 35°C e 37°C — temperatura de corpo, ligeiramente morna ao toque do pulso.

Não aqueça além de 40°C. Temperatura alta demais mata os microrganismos naturais do leite e prejudica a formação da coalhada.

Se não tiver termômetro, o ponto certo é quando o leite está morno ao toque do pulso — nem frio nem quente, como água de banho de bebê.

Etapa 2 — Adicionando o coalho

Dilua o coalho nos 50ml de água filtrada e misture bem. Com o leite na temperatura certa, desligue o fogo. Adicione o coalho diluído ao leite mexendo devagar por 1 minuto para distribuir uniformemente.

Tampe a panela e deixe descansar completamente em local sem movimento por 40 a 50 minutos. Não mexa, não balance, não abra para ver. A coalhada precisa de silêncio e tempo para se formar.

Etapa 3 — Verificando e cortando a coalhada

Depois de 45 minutos, verifique a coalhada fazendo o teste do dedo limpo — mergulhe o dedo na superfície e puxe levemente. Se a coalhada abrir uma fenda limpa e o soro que aparecer for amarelado e transparente, está pronta para cortar.

Com uma faca de lâmina longa, corte a coalhada em cubos de aproximadamente 1,5 cm — primeiro cortes paralelos no sentido horizontal, depois no sentido vertical, formando uma grade. Depois faça cortes em diagonal para cortar nos dois sentidos.

O tamanho do corte influencia a umidade do queijo final. Cubos maiores resultam em queijo mais úmido. Cubos menores resultam em queijo mais seco e firme. Para o queijo minas artesanal tradicional, cubos de 1,5 cm são o padrão.

Etapa 4 — Mexendo e aquecendo levemente

Depois de cortar, deixe a coalhada descansar por 5 minutos. Depois misture devagar e com cuidado com uma colher grande, movimentos suaves de baixo para cima por 10 minutos.

Se quiser um queijo mais firme, aqueça a mistura muito lentamente durante esse processo até chegar a 38°C, sempre mexendo. Esse processo se chama segunda mexedura e retira mais soro da massa.

Etapa 5 — Dessoragem e salga da massa

Com uma escumadeira ou pano de queijo, retire a massa coalhada da panela e transfira para uma vasilha. Descarte parte do soro — guarde um pouco se quiser usar para fazer ricota depois.

Adicione o sal grosso à massa ainda na vasilha e misture com as mãos limpas, esfregando o sal uniformemente por toda a massa. Prove — deve estar levemente salgada, um pouco mais do que você colocaria num alimento pronto.

Etapa 6 — Prensagem na forma

Forre a forma de queijo com o pano de queijo limpo, deixando sobrar pano nas laterais. Transfira a massa para a forma, pressionando com as mãos para compactar bem e eliminar bolsões de ar.

Dobre o pano por cima da massa. Coloque um peso por cima — pode ser outra forma menor com água dentro, uma tábua com um peso, ou qualquer coisa pesada. O peso deve ser equivalente ao dobro do peso da massa.

Vire o queijo na forma a cada 30 minutos nas primeiras 2 horas — isso garante uma prensagem uniforme e uma casca regular dos dois lados.

Etapa 7 — Salga da superfície

Após 4 horas de prensagem, desenforme o queijo com cuidado. Esfregue sal grosso em toda a superfície — superior, inferior e laterais. O sal vai sendo absorvido e forma a casca protetora.

Coloque o queijo numa tábua de madeira ou prateleira em local fresco e ventilado.

Etapa 8 — A cura

Nos primeiros 2 dias, vire o queijo 2 vezes ao dia e aplique mais sal na superfície. A partir do terceiro dia, vire uma vez ao dia. Seque o excesso de umidade que se formar na base com um pano limpo.

O queijo minas artesanal pode ser consumido fresco, com apenas 3 a 5 dias — mais úmido, de sabor suave. Com 15 dias começa a desenvolver mais complexidade. Com 30 dias ou mais está na fase de meia cura — casca mais firme, sabor mais pronunciado, textura que começa a criar pequenos cristais de sal. É o ponto favorito aqui em casa.


Como armazenar

Queijo fresco — até 7 dias na geladeira embrulhado em papel manteiga. Queijo em cura — em local fresco e ventilado, temperatura entre 15°C e 20°C. Se não tiver cave ou local apropriado, a prateleira menos fria da geladeira funciona.


Utensílio recomendado — Forma para Queijo Minas

A forma correta é essencial para o queijo ter o formato tradicional e drenar o soro da maneira certa. A forma de queijo minas tem furos laterais e no fundo que permitem a saída gradual do soro durante a prensagem. Sem esses furos o soro fica preso na massa e o queijo fica muito úmido e não firma corretamente.

As formas plásticas próprias para queijo minas são acessíveis e duráveis — com cuidado duram anos. Se você vai fazer queijo com frequência, ter pelo menos duas formas permite produzir queijos em dias alternados.

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Conclusão

Fazer queijo minas artesanal em casa é uma das experiências mais satisfatórias da culinária tradicional brasileira. É um processo que pede atenção e paciência, mas que recompensa com um produto genuíno, sem conservante, sem aditivo, com o sabor que só leite de verdade e tempo conseguem criar.

Se você fizer aí em casa me conta nos comentários como ficou — qual foi o ponto de cura que mais gostou, se fez com leite cru ou pasteurizado, e como serviu. Adoro saber como as receitas funcionam na cozinha de cada um.

Bom apetite!

— João

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