O composteiro que o avô Joaquim montou atrás do galinheiro ainda está lá, e ainda funciona. São três divisórias de madeira, sem tampa, sem tecnologia nenhuma. Ele nunca chamou aquilo de compostagem — chamava de monte de esterco, e dizia que jogar casca de fruta no lixo era coisa de gente da cidade que não sabe o valor das coisas.
Ele tinha razão outra vez. Tudo que sai da cozinha volta para a terra aqui, e é isso que mantém a horta produzindo sem agrotóxico há décadas sem precisar comprar adubo.
Compostagem parece complicado quando você lê sobre. Na prática são duas regras e paciência.
As duas regras que resolvem tudo
A primeira é a proporção entre material seco e material úmido. A segunda é o ar.
Material úmido é tudo que apodrece rápido e tem cheiro: casca de fruta, resto de verdura, borra de café. Material seco é o que demora: folha caída, capim seco, serragem, papelão picado.
A proporção é de duas partes de seco para uma de úmido, em volume. Sempre que colocar restos da cozinha, cubra com o dobro de material seco.
Se a pilha ficar fedendo, é excesso de úmido — acrescente seco. Se não decompor nada em semanas, é excesso de seco — acrescente úmido e um pouco de água.
A Embrapa Hortaliças publica material técnico sobre compostagem e adubação orgânica que vale a consulta.
O que pode e o que não pode
| Pode | Não pode |
|---|---|
| Casca de fruta e legume | Carne e osso |
| Borra e filtro de café | Laticínio de qualquer tipo |
| Casca de ovo triturada | Óleo e comida gordurosa |
| Folha seca e grama cortada | Fezes de cão e gato |
| Serragem de madeira não tratada | Planta doente ou com praga |
| Papelão e jornal picados | Papel colorido ou plastificado |
| Esterco de galinha, vaca ou cavalo | Cinza em grande quantidade |
A regra da carne e do laticínio não é frescura. Eles atraem rato e mosca, e produzem um cheiro que você não quer perto de casa. Já a fezes de cão e gato pode carregar parasita que sobrevive ao processo.

Montando o composteiro
O modelo mais simples
Um cercado de madeira ou tela de 1 metro por 1 metro, aberto em cima, direto no chão de terra. Sem fundo — o contato com a terra é o que traz minhoca e microrganismo.
Escolha um lugar com meia sombra, longe da porta da casa e perto de onde você vai usar o adubo.
Para quem mora em apartamento
Dá para fazer em três baldes empilhados de 20 litros. Os dois de cima furados no fundo, o de baixo inteiro para juntar o líquido. Funciona bem e não tem cheiro se você respeitar a proporção.
A primeira camada
Comece com uma camada grossa de material seco no fundo — uns 15 centímetros de folha ou capim. Isso garante drenagem e evita que a base encharque.
A rotina do dia a dia
- Junte os restos da cozinha num balde com tampa durante o dia
- Leve ao composteiro a cada dois ou três dias
- Abra um buraco no meio da pilha, despeje e cubra com material seco
- Reviro a pilha uma vez por semana com um garfo ou pá — é isso que leva ar para dentro
- Se estiver muito seco, molhe levemente; a pilha deve ficar úmida como esponja torcida
O revolvimento semanal é o que mais acelera o processo. Pilha que ninguém revira demora o dobro do tempo e pode gerar cheiro ruim.
Quanto tempo até ficar pronto
| Condição | Tempo |
|---|---|
| Revirando toda semana, material picado | 60 a 90 dias |
| Revirando de vez em quando | 4 a 6 meses |
| Sem revirar nunca | 8 a 12 meses |
Picar os restos em pedaços menores antes de jogar acelera bastante. Casca de melancia inteira demora meses; picada em cubos, semanas.

Como saber que o adubo está pronto
- Cor marrom escura, quase preta, uniforme
- Cheiro de terra molhada — não de podre, não de azedo
- Textura solta e esfarelada
- Não dá mais para identificar o que era cada coisa
- Temperatura igual à do ambiente; pilha ainda quente está em processo
Se ainda tiver pedaço reconhecível, peneire e devolva o que sobrar para a pilha nova.
Como usar
Misture o composto pronto na terra do canteiro numa proporção de uma parte de composto para três de terra. Para vaso, uma parte para duas.
Também dá para usar como cobertura, espalhando uma camada de 2 centímetros em volta das plantas. Isso alimenta aos poucos e ainda segura umidade no solo.
O líquido escuro que escorre no balde de baixo é o chorume, e é adubo concentrado. Dilua em água na proporção de 1 para 10 e use para regar. Puro ele queima a planta.
O que acontece dentro da pilha
Vale entender o processo, porque aí os problemas passam a fazer sentido em vez de parecerem aleatórios.
A decomposição é feita por bactéria e fungo que já estão naturalmente no material e no solo. Eles precisam de quatro coisas para trabalhar: carbono, que vem do material seco; nitrogênio, que vem do material úmido; água; e oxigênio.
Quando falta oxigênio, entram em ação outras bactérias, as anaeróbias — e são elas que produzem o cheiro de podre. Por isso revirar a pilha resolve o mau cheiro: você devolve oxigênio ao sistema e as bactérias certas voltam a dominar.
| Problema | Causa | Solução |
|---|---|---|
| Cheiro de podre | Falta de oxigênio ou excesso de úmido | Revirar e acrescentar material seco |
| Cheiro de amônia | Excesso de nitrogênio | Acrescentar folha seca ou serragem |
| Nada decompõe | Falta de nitrogênio ou de água | Acrescentar restos verdes e molhar |
| Formigueiro na pilha | Pilha seca demais | Molhar e revirar |
| Pilha encharcada | Chuva ou excesso de água | Cobrir e misturar material seco |
Compostagem com minhoca — vale a pena?
A vermicompostagem usa minhoca californiana para acelerar o processo. Produz um adubo de qualidade superior, o húmus, e é bem mais rápida — de 30 a 45 dias contra 90 da compostagem comum.
A contrapartida é que exige mais cuidado. A minhoca morre com temperatura alta, com excesso de cítrico e se a caixa secar. Também não aceita cebola, alho nem pimenta.
Aqui na fazenda a gente usa o método simples porque tem espaço e não tem pressa. Para quem mora em apartamento ou tem quintal pequeno, a minhoca compensa mais — ocupa menos espaço e não tem cheiro nenhum quando bem cuidada.
Quanto isso economiza
Uma família de quatro pessoas produz de 8 a 15 kg de resto orgânico por mês, que viram de 3 a 5 kg de composto. Ao longo de um ano são de 36 a 60 kg de adubo que você deixa de comprar.
Mas o ganho maior não é o dinheiro do saco de adubo. É que composto caseiro melhora a estrutura do solo de um jeito que adubo químico não faz — ele aumenta a retenção de água, alimenta a vida do solo e corrige a compactação ao longo do tempo.
Terra que recebe composto há anos fica escura, fofa e cheia de minhoca. Terra que só recebe adubo químico continua dura e dependente de aplicação constante. É a diferença entre alimentar a planta e alimentar o solo.
Perguntas frequentes
Vai atrair rato e barata?
Não, se você não colocar carne, laticínio nem gordura, e se sempre cobrir os restos com material seco. Restos expostos na superfície são o que atrai bicho.
Está com muito mosquinha, o que faço?
Excesso de material úmido exposto. Acrescente uma camada boa de seco por cima e reviro a pilha. Resolve em poucos dias.
Posso jogar casca de laranja e limão?
Pode, em quantidade moderada. Cítrico em excesso acidifica a pilha e afasta a minhoca. Se você tem muita casca de laranja, alterne com cinza de fogão em pouca quantidade para equilibrar.
A pilha está fumegando, é normal?
É normal e é bom sinal. A decomposição gera calor e a pilha pode chegar a 60 °C no centro. Essa temperatura mata semente de mato e patógeno.
Quanto adubo uma família produz por mês?
Uma família de quatro pessoas gera de 8 a 15 kg de resto orgânico por mês, o que vira cerca de 3 a 5 kg de composto pronto. Suficiente para manter uma horta pequena o ano todo.
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Conclusão
Compostagem é a coisa mais barata que você pode fazer pela sua horta, e a mais antiga. Meu avô fazia sem saber o nome e sem ler nada sobre.
Duas partes de seco para uma de úmido, reviro toda semana. É só isso que você precisa lembrar.
— João Augusto, Fazenda Boa Esperança